CRÍTICA: O EDREDOM
Com coragem, belo espetáculo enfrenta o tema do isolamento infantil

            Seis anos depois, o premiado esquete “O edredom” volta ao Festival Niterói em Cena, dessa vez, participando como um espetáculo longo. A história é sobre uma perda que ocorre na vida de uma criança quando ela decide se isolar do resto do mundo. Vencedor nas categorias de Melhor Texto e Melhor Ator em 2014, Tauã Delmiro retorna à programação mais uma vez trazendo seu excelente trabalho de interpretação em espetáculo tão provocante quanto potente entre inúmeras outras qualidades.

 

            Para assistir, clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=CPj3xe-AMaU&feature=youtu.be

 

            Dirigido com cuidado nos menores detalhes por Manu Hashimoto, o espetáculo narra a história de uma criança que se sente oprimida pelo mundo que a cerca e que parece impor uma decisão sobre ser menino ou ser menina. No seu modo único de sentir, o problema é que nenhuma das duas ofertas lhe parece ser suficientemente atrativa: se optar por ser menino, terá que nunca mais chorar; se por ser menina, irá casar-se e não ser feliz. Tudo o que essa criança pede de natal, neste ano, é ser como um dos seus peixes favorito do aquário de seu quarto – o Manteiga: ser menino e ser menina ao mesmo tempo.

            Na dramaturgia assinada por Tauã Delmiro, a estrutura se organiza de modo multifocal. O público acompanha o ponto de vista da criança, mas também do peixe. E ainda vemos outros personagens externos, como o Papai Noel do shopping do bairro, o dono de uma confeitaria, apresentadores de televisão, outros peixes, transeuntes, entre outros. A abordagem traz inúmeras referências à peça “Hamlet”, de William Shakespeare, cujo nome também popularmente batiza uma entre milhares espécies de animais marinhos. Há ainda menções a “O Lago dos Cisnes”, Edith Piaf, Noel Rosa, Simone, astrologia etc. A trilha sonora, composta por canções e por áudios, é talvez um dos pontos mais altos do espetáculo pela sua variedade de registros e pela excelente contribuição na solidez da narrativa.

            O título “O edredom” tem a ver com o isolamento, que é o verdadeiro tema da peça. Quando a criança resolve se isolar – seja para se proteger, seja para se preparar –, ela acaba sinalizando que “há algo de podre no Reino da Dinamarca”. O peixinho Manteiga sente a falta da criança e planeja um jeito de salvá-la, mas só ela talvez de fato tenha essa chance. O famoso solilóquio “ser ou não ser” (ato III, cena 1) de Shakespeare, que é citado também aqui nessa dramaturgia em momento bastante relevante, trata sobre o tema da reflexão e da decisão de modo negativo: “Assim, a reflexão faz de todos nós covardes. Assim, a cor saudável e natural de uma decisão fica doentia enquanto uma sombra pálida deixa fétido o pensamento.” O/a protagonista de “O edredom”, indo na mesma direção do Príncipe da Dinamarca, talvez seja castigado por não se abrir o suficiente sobre suas dores. Na peça clássica, a problemática se revela num diálogo entre o jovem Hamlet e o fantasma de seu pai. Nessa daqui, a questão é abordada apenas na conversa entre a criança e o Papai Noel do shopping. Nem o fantasma, nem o bom velhinho poderão ajudar os protagonistas.

            Realizada pelo Coletivo Macacos Alados, a peça tem ainda méritos no cenário e no figurino. O primeiro revela a principal referência da criança: o peixe Hamlet Manteiga. O segundo traz luz sobre a androginia do personagem protagonista com o vibrante mérito de não recorrer a estereótipos, mas preferir o lirismo e a beleza. Os dois, como também o texto, a direção e a atuação, são exemplos da sensibilidade por trás dessa produção tão responsável e corajosa.

            Por vários motivos, de diferentes matizes, é cada vez mais importante que estejamos atentos aos sinais de isolamento das crianças. O silêncio delas pode ser sua forma de gritar e precisamos ouvi-las e acolhê-las. Ainda que, em superfície, “O edredom” pareça unicamente tratar de questões de gênero ou de orientação sexual, em profundidade, a peça é sobre afeto, sobre cuidado, sobre amizade, companhia e carinho.

            Foi bom ver o 13º Niterói Em Cena começar assim. Parabéns!

 

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Ficha técnica:

Realização: Coletivo Macacos Alados

Texto e performance: Tauã Delmiro

Direção: Manu Hashimoto

Intérprete de Libras: Wesley Leal